DE ESTAGIÁRIO A GERENTE: DEPOIMENTO DE UM INTERNACIONALISTA NOS JOGOS RIO 2016

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Confira o depoimento do analista internacional Marco Bersani sobre o processo seletivo para trabalhar no Comitê Rio 2016. Bersani começou como estagiário e logo foi contratado como gerente da área de Credenciamento dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Quem sabe não é essa a inspiração que você precisa para embarcar para Tóquio 2020?

Por Marco Bersani, analista internacional

Em jantar de colegas da faculdade, em outubro de 2014, fiquei sabendo sobre as inscrições para o último processo seletivo de estagiários do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. Uma das pessoas na mesa já era estagiária do departamento de finanças do Comitê e acabou me convencendo de participar da seleção.

Processo seletivo

O processo se dividia em cinco etapas e tinha duração aproximada de três a quatro meses. Na primeira etapa, nosso curriculum era analisado e, após afirmativa de que tínhamos passado nessa primeira peneira, recebíamos 4 provas por email, com tempo estipulado, a serem realizadas online. Uma prova de raciocínio lógico, outra de português, uma de inglês e, por fim, uma de conhecimentos gerais, que englobava questões sobre Olimpíadas e Paralimpíadas. Minha preparação consistiu em estudar tudo o que pude sobre os Jogos, memorizei as informações disponibilizadas no site oficial da Rio 2016 e fiz anotações.

Em novembro recebi um email convite para a próxima etapa, uma dinâmica de grupo presencial na própria sede do Comitê. Lá nos foi pedido para escrever uma redação em português e, uma vez separados em grupos, realizamos a dinâmica que consistiu na criação de um novo esporte inclusivo em comunidades do Rio de Janeiro. Apresentamos nosso projeto e nos defendemos das críticas recebidas por parte dos outros grupos. Confesso que essa etapa me pareceu extremamente subjetiva, considerando que em minha sessão da dinâmica, naquela data e horário específico, compareceram cerca de 70 pessoas, enquanto uma única profissional de RH analisava a performance geral de cada um. Saí descrente de que ela tinha sido capaz de analisar as habilidades de cada um de forma eficiente.

Felizmente, eficiente ou não, aquela funcionária me aprovou para a seguinte etapa. A quarta e quinta etapas seriam realizadas em um mesmo dia, portanto, os que não passassem na parte matutina seriam dispensados da última fase no período vespertino. Estava cada vez mais próximo da contratação. O que inicialmente era um desejo despretensioso de trabalhar no Comitê estava ficando cada vez mais sério à medida que eu subia cada degrau.

A área funcional a qual eu tinha sido designado foi de Credenciamento. Eu não tinha informações detalhadas sobre a área, mas decidi encarar. Levamos uma apresentação individual em pendrive e nos apresentamos para os gestores. Havia uma funcionária de RH e quatro gerentes de Credenciamento. Após a apresentação, nos dividiram em grupos e tivemos que criar o processo de credenciamento dos Jogos Olímpicos. Ficamos desesperados. Estávamos criando e apresentando a operação de uma área que não conhecíamos para os próprios gestores do departamento. Para piorar, não sabíamos que nenhum deles era brasileiro e tampouco falavam português. Fomos pegos de surpresa.

Todo esse processo durou mais de 4 horas. Por fim, escolheram alguns candidatos, dentre eles eu, e seguimos para as entrevistas em dupla. Um mês depois veio a resposta. Começaria a trabalhar em março de 2015 para o departamento de Credenciamento da Rio 2016, juntamente com mais 5 estagiários. Estava animadíssimo.

   

Atividades do Estágio

No primeiro dia de trabalho, recebemos um manual gigante do credenciamento dos Jogos de Londres. Durante meu um ano de estágio, realizei diversas tarefas, muitas delas chatas, acreditem se quiser, ainda pedem para estagiários fazerem cópias e pegar resultados de exames do chefe. Por outro lado, muitas delas agregaram expressivamente para meu desenvolvimento profissional. Meu projeto mais interessante e, sem dúvida, mais desafiador foi participar da criação da atividade core do meu departamento, o UAC (Uniform and Accreditation Centre – Centro de Uniformes e Credenciamento).

Planejamos desde sua construção, transferência dos funcionários para a instalação, como a parte operacional. Foi uma luta contra o tempo, tínhamos que nos mudar para a instalação no mais tardar em janeiro de 2016 para iniciarmos nossas atividades e credenciar mais de um quarto de milhão de pessoas para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Todos os stakeholders, sejam eles funcionários da Rio 2016, voluntários, terceirizados, família dos jogadores; delegações estrangeiras, Chefes de Estado etc, tinham que, obrigatoriamente, portar uma credencial para participar dos jogos.

O mundo inteiro estava de olho, a pressão era enorme. Havia a possibilidade de sofrermos um ataque terrorista e o departamento de credenciamento não poderia falhar. Os acessos nas credenciais deveriam estar corretos, os dados dos participantes deveriam ser verídicos, cada indivíduo deveria passar por uma checagem de segurança e tudo isso era responsabilidade nossa, do meu departamento. Foi um desafio e tanto, uma corrida diária contra o tempo.

Antes de entrar no Comitê, eu não tinha ideia do que seria um setor de Credenciamento. Não fazia ideia de que era tão complicado. Éramos uma equipe de mais de cem pessoas, trabalhando incansavelmente, mais de onze horas por dia, não tínhamos final de semana. Basicamente, nosso trabalho consistia em identificar todos os stakeholders, com mais de um ano de antecedência, elaborar um mapa de acesso que cada grupo e indivíduo teria para circular dentro de uma instalação. Mais de um quarto de milhão de pessoas.

Dentro desse mar quase infinito de trabalho, fiquei responsável por estabelecer as especificidades de alguns dos materiais de credenciamento; papel carta, lâmina, lanyard. Após determinarmos como deveriam ser esses materiais, abrimos um processo licitatório e analisamos as amostras enviadas pelas empresas participantes. Um detalhe, cada um desses materiais, tirando as lanyards que foram fornecidas por um dos patrocinadores, a Atos, tinha que possuir recursos de segurança. Tinta invisível, holograma, ferramentas para evitar todo e qualquer tipo de falsificação.

Gerente durante Jogos Olímpicos e Paralímpicos

Mudamos-nos para o UAC no início de 2016. Era chegada a hora de tirar tudo do papel e colocar em prática. Fiquei encarregado de selecionar os voluntários, escalar, treinar e gerenciar os 106 voluntários olímpicos e 96 voluntários paralímpicos que iriam ajudar nas operações de credenciamento da instalação. Nesse ínterim, eu já havia sido contratado como gerente do UAC, e ganhado de presente essa equipe enorme para gerenciar. Trabalhar no Comitê foi como um curso intensivo de crescimento profissional. Cada mês um desafio, uma responsabilidade maior. Entrei na Rio 2016 inexperiente, no último ano de faculdade. Saí formado, com uma bagagem enorme, como gerente de operações da maior instalação olímpica e paralímpica do Rio de Janeiro.

Não gostaria de entrar no mérito do legado que as Olimpíadas e Paralimpíadas deixaram ao país e, principalmente para o Rio de Janeiro, até porque sou extremamente suspeito para falar desse assunto. Um fato, porém, é claro. Sem mencionar o legado material deixado pelo Comitê, há um legado que, para mim, pode ser ainda mais relevante. O legado humano. Quatro anos de preparação, trabalho árduo, treinamentos e capacitações deixaram como legado milhares de ex-funcionários, ex-voluntários e terceirizados. O país e o Rio de Janeiro carecem de mão-de-obra qualificada e essas pessoas estão à espera de serem reabsorvidas pelo mercado de trabalho. Resta saber como o mercado irá aproveitar esses profissionais, o grande legado do maior evento esportivo do mundo.

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