Entrevista com Fernanda Martins: Relações Internacionais como vocação

Relações Internacionais como vocação, carreira acadêmica e o mercado de trabalho em RI

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Fernanda Martins - Doutora em Relações Internacionais - PPGRI-UERJ Coordenadora do Curso de Relações Internacionais na Mackenzie Rio

Seguindo a série de entrevistas com profissionais formados e atuantes na área de Relações Internacionais, hoje, o What´s Rel? traz na íntegra a Entrevista com “Fernanda Martins: Relações Internacionais como vocação, carreira acadêmica e o mercado de trabalho em RI”, com um depoimento brilhantemente sincero sobre sua trajetória.

Formada em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Mestre em RI pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Doutora em RI pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Fernanda Martins possui mais de uma década de carreira nas Relações Internacionais.

Atualmente, é coordenadora e professora do curso de graduação em Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio e discorre nesta entrevista sobre como foi participar da criação do curso na instituição que já nasceu com nota máxima no MEC, bem como sua experiência em Think Thank, e os desafios de desenvolver uma carreira acadêmica conectada com a realidade do cidadão comum e o mercado de trabalho. Está apenas imperdível!

1. O que a motivou a optar pelo curso de Relações Internacionais como graduação? Você sempre soube que queria cursar RI?

Eu escolhi minha graduação com 14 anos, quando estava na 8ª série e nunca mais mudei de ideia. A escolha do curso foi um tanto inusitada. Eu morava em Brasília e vi na rua um carro com um adesivo: Relações Internacionais – UNB. Na época, era muito comum se usar esse tipo de adesivo nos carros fazendo propagando do seu curso e da sua instituição. Na hora, eu perguntei à minha mãe com o que uma pessoa formada em RI trabalhava e ela me incentivou a pesquisar já que não tinha certeza sobre o que uma pessoa formada na área fazia, mas que deveria ter a ver com alguma coisa de diplomacia. Eu fiz a pesquisa e me encantei com a ideia de estudar RI. Por morar em Brasília, o Itamaraty, as Embaixadas e o contato com estrangeiros faziam parte da minha vida de alguma forma fazendo com que o estudo da política internacional se tornasse mais atraente ainda. Tomei minha decisão e nela permaneci até me formar no terceiro ano do ensino médio e prestar o vestibular. Hoje posso dizer que fui feliz nessa escolha feita com apenas 14 anos de idade.

2. Para além da graduação, você fez mestrado e doutorado em Relações Internacionais. O que te motivou a seguir este caminho? Você tomou esta decisão já visando seguir uma carreira acadêmica, ou isto acabou sendo uma consequência desta formação? Conta para a gente, por favor, um pouco deste processo.

Eu escolhi dar continuidade ao estudo no mestrado e doutorado pois já tinha decidido que queria seguir a carreira acadêmica. Como boa parte das pessoas que prestam vestibular para RI, a princípio meu interesse era na diplomacia (afinal, eu morava em Brasília quando fiz esta escolha), mas durante a graduação eu tive duas experiências que me mostraram que talvez a minha vocação fosse para a academia.

No meio do ensino médio eu me mudei para o Rio de Janeiro por conta do trabalho do meu pai e acabei fazendo minha graduação na cidade. Durante este período, eu fui parte da primeira leva de estagiários de pesquisa do BRICS Policy Center, uma iniciativa da PUC-Rio com a Prefeitura da cidade para produzir pesquisas sobre os BRICS que em 2010 estavam no auge da sua projeção política internacional como clube de países emergentes. Lá eu estagiei no núcleo sobre Comércio, Finanças, Desenvolvimento e Investimento que tinha como responsabilidade produzir pesquisas e policy briefs sobre esses temas relacionados aos BRICS. Minhas primeiras publicações acadêmicas foram fruto desse estágio. Além disso, tive a oportunidade de conviver com pesquisadores renomados e de longa trajetória com quem aprendi muito. Ainda por cima, tínhamos contato constate com pesquisadores de outros países BRICS que vinham passar alguns meses como fellows no centro de pesquisa.

No mesmo período, uma amiga me perturbou muito para que eu enviasse uma proposta de artigo para o maior congresso de estudos internacionais do mundo que acontece todos os anos nos EUA, a International Studies Association Annual Conference que aconteceria em San Diego naquele ano. Eu mandei duas propostas de artigo, uma sozinha e uma com uma amiga muito querida. As duas propostas acabaram sendo aprovadas e ainda na graduação eu tive o desafio de apresentar minhas pesquisas em um congresso internacional de grande importância. Isso foi em 2012 e eu já estava no último ano da graduação. Eu gostei muito do processo de produzir meus artigos e pesquisas e de ir ao congresso compartilhar meus resultados. Claro que ouvi várias críticas construtivas de outros participantes, afinal eu ainda era uma pesquisadora muito inexperiente. Foi um desafio enorme, afinal a apresentação foi em língua inglesa e eu fiquei MUITO nervosa. Mas me senti realizada de estar ali.

Essas duas experiências foram me mostrando que talvez a área acadêmica fosse o caminho profissional ideal para mim e já pensava em emendar a graduação com o mestrado. O mestrado confirmou essa vocação para a academia e depois apliquei logo para o doutorado, onde o estágio docente me deu a prova final de que eu estava no caminho correto. Fiz meu doutorado na UERJ e lá tive a oportunidade de lecionar sobre Economia Política Internacional para os alunos da graduação. Ainda lembro o quentinho no peito da certeza de estar no lugar certo: a sala de aula. Depois disso, não me restaram dúvidas de que eu tinha uma vocação para a academia, além de ter gosto por exercer as atividades relacionadas à carreira acadêmica.

3. Quais características e/ou aprendizados do curso de Relações Internacionais que mais contribuíram para seu desenvolvimento profissional?

Um dos principais aprendizados que o curso de Relações Internacionais me trouxe foi a capacidade de pensar de forma mais ampla sobre os fenômenos da política internacional, entendendo que as causas para os diferentes fenômenos são mais complexas do que imaginamos a princípio. O curso me ajudou a desenvolver uma sensibilidade maior para entender diferentes interesses e percepções sobre o mundo que muitas vezes são determinados pelo lugar social e cultural que ocupamos.

O curso de RI me ensinou a não me contentar com soluções e respostas muito simplistas já que os fenômenos da política internacional têm causas extremamente complexas e dificilmente monolíticas. O curso também me ensinou que o internacional não está tão longe quanto as distâncias geográficas nos fazem achar, mas que tem implicações diretas no nosso cotidiano. Talvez a maior lição tenha sido aprender a pensar estrategicamente, uma vez que uma das principais funções do internacionalista é pensar estrategicamente sobre a posição do seu país no cenário internacional.

4. Como internacionalista, quais foram seus maiores desafios em relação ao mercado de trabalho?

Como eu escolhi a área acadêmica, minha principal dificuldade foi a escassez de vagas na área uma vez que o universo de vagas docentes disponível é limitado. Além disso, há um grande volume de mestres e doutores na área resultante da dificuldade de inserção no mercado de trabalho de egressos de Relações Internacionais. Na minha visão, o problema não é da área de conhecimento em si, mas da forma como a maior parte dos cursos de graduação foram estruturados. Como há uma relativa desconexão dos cursos tradicionais de RI do mercado de trabalho, muitas pessoas têm dificuldades de se inserir no mercado de trabalho e acabam dando continuidade aos estudos acadêmicos.

Hoje o cenário é de muitos mestres e doutores com dificuldade de se inserirem profissionalmente na área já que as vagas em instituições de ensino são limitadas e concursos para universidades públicas tem se tornado raros, ofertando poucas vagas e com um grande volume de inscritos. Isso faz com o doutorado seja imprescindível para quem quer seguir carreira acadêmica na área.

Além disso, acredito que esse inchaço da academia é também resultado de muitas crenças limitantes sobre o potencial de um profissional formado em Relações Internacionais, que é muito grande para ocupar diferentes posições de relevância no mercado de trabalho.

5. Quais dicas considera importantes para analistas internacionais que desejam seguir a carreira acadêmica?

Leia muito, leia em língua estrangeira, estude a língua do país no qual deseja aprofundar seus estudos, produza bom conteúdo acadêmico que não esteja desconectado da realidade do cidadão comum, procure tornar sua pesquisa relevante para a sociedade. Se possível, tenha experiências de estudo no exterior, seja um doutorado/mestrado sanduíche ou um curso de pós-graduação. Participe de eventos acadêmicos nacionais e internacionais, não tenha medo de expor suas pesquisas e esteja aberto a receber críticas construtivas. Seja gentil e não deixe a lógica egoísta e competitiva da academia guiar suas ações. Um colega de hoje um dia poderá ser um networking importante para te ajudar na sua inserção no mercado de trabalho, inclusive na academia.

6. Em que momento da sua carreira surgiu o convite da Mackenzie Rio para que você criasse o curso de Relações Internacionais na instituição? O que a motivou a aceitar este convite?

O convite para vir para a Mackenzie Rio veio quando eu estava me aproximando do fim do meu doutorado. Foi um convite que incluía responsabilidades muito além do que eu imaginava assumir sendo tão jovem na carreira acadêmica. Eu fui convidada para coordenar o futuro curso de Relações Internacionais da instituição e contribuir na montagem do projeto pedagógico, além de ser responsável por responder junto à comissão de avaliação do MEC para a autorização do curso. Foi um desafio que me fez sair bastante da minha zona de conforto, mas que tem sido uma experiência de muito aprendizado. É uma responsabilidade muito grande construir esse curso que será a base da formação de uma geração de profissionais que escolheram a Mackenzie Rio para conduzir sua formação de ensino superior. E eu levo isso muito a sério.

Pensamos o curso de RI da Mackenzie Rio para suprir as necessidades que vemos no mercado de trabalho contemporâneo sem perder a essência do que é um curso de Relações Internacionais tradicional. Nosso desafio é alcançar esse equilíbrio entre as demandas do mercado e a tradição canônica dos cursos de RI uma vez que é essa tradição que torna o analista internacional um profissional com uma visão diferenciada sobre o mundo, a política internacional e seus impactos nos diferentes segmentos de mercado.


7. De acordo com pesquisas recentes (03/2024) no site do e-MEC existem cerca de 115 cursos de graduação em Relações Internacionais no Brasil. Ao que você creditaria a decisão da Mackenzie Rio de agregar um novo curso de RI em seu portfólio tradicional com oferta de cursos de direito, contabilidade e economia, por exemplo? Quais seriam os diferenciais do curso que você coordena na Instituição?


A Mackenzie Rio tem como objetivo desenvolver uma escola de negócios na sua nova sede em Botafogo. A ideia é criar um ecossistema de cursos que se comunicam levando à formação de jovens líderes empreendedores e com alta capacidade de gestão, que sejam profissionais de impacto tanto no setor privado quanto no público. Nesse contexto, o curso de Relações Internacionais vem para a contribuir com o ecossistema da escola e ajudar na formação de profissionais capazes de atuar no âmbito internacional de forma ética, estratégica e empreendedora. O nosso projeto pedagógico visa fornecer ao aluno as ferramentas profissionais que ele precisa para se inserir no mercado de trabalho como analista internacional. Nosso curso tem um enfoque na empregabilidade dos nossos alunos, deixando um espaço na formação voltada para disciplinas de viés profissional, voltadas para demandas específicas do mercado de trabalho além de toda a carga teórica tradicional dos cursos de RI. Nós acreditamos que o profissional de Relações Internacionais tem muito a contribuir em diversas áreas do mercado e visamos formar profissionais que possam se adequar a essas diferentes áreas preservando a visão sistêmica e ampla que a formação em Relações Internacionais tradicionalmente imprime nos seus egressos. Assim, apesar de um enfoque geral em análise de risco político, nosso curso cria oportunidades de que o aluno escolha diferentes caminhos profissionais através de disciplinas voltadas para a formação de capacidades específicas para diferentes áreas que absorvem o aluno de Relações Internacionais.

8. Acredita que o estudante e profissional de RI é carente de informação sobre carreira? O que tem a nos dizer sobre isso?

Sim! Acredito que há pouca informação sobre as múltiplas possibilidades de atuação do profissional de relações internacionais em diferentes setores. Por ter uma formação generalista, conseguimos atuar de forma competente em diferentes segmentos uma vez que temos uma perspectiva mais ampla e complexa sobre a política internacional aprendida na nossa formação. Acredito inclusive que essa falta de informação acaba gerando um descolamento da realidade prática das pesquisas produzidas pela academia. Há muita pesquisa de grande relevância sendo produzida no Brasil e que poderia ser mais bem explorada com links diretos com a prática, principalmente no que concerne o ambiente de negócios no Brasil. A área de análise de risco político que tem crescido é um segmento onde o conhecimento adquirido nas RI pode ser aplicado de forma mais prática, por exemplo, e que é pouco desenvolvida no país principalmente no âmbito das RI.

9. Na sua opinião, qual a importância da experiência dos estágios na carreira de um internacionalista?

O estágio é de fundamental importância na formação do profissional de Relações Internacionais, é o momento de explorar diferentes áreas de atuação, de conhecer o mundo do trabalho e entender quais são suas aptidões e características que podem contribuir para o seu crescimento profissional. Na minha experiência, foi o estágio que me permitiu direcionar melhor minha opção pela carreira acadêmica.

Eu participei de diferentes processos seletivos de estágio e trainee de grandes empresas nacionais e multinacionais, mas no final acabei me mantendo no estágio da área acadêmica pois era onde me sentia realizada. Fiz 2 anos de estágio no think thank onde trabalhei. Ainda assim, a experiência desses processos seletivos me ajudou a entender um pouco das demandas do mercado para um profissional da área internacional.

10. Em que medida seus relacionamentos interpessoais (networking) foram importantes na sua carreira?

MUITO importantes! Com certeza o networking é muito importante, inclusive na área acadêmica. O convite para coordenar o curso de RI na Mackenzie Rio veio através da indicação de uma amiga querida da época da graduação. Quando fiz meu mestrado, que foi fora do Rio de Janeiro, as conexões feitas na graduação me ajudaram a chegar bem recomendada na nova instituição em que estudei. Agora na gestão do curso, o networking tem ajudado a expandir as parcerias estratégicas que tem gerado novas oportunidades para os nossos alunos como parcerias com universidades no exterior, com professores renomados que trazem cursos de formação continuada para a nossa instituição, contato próximo com parceiros de empresas que abrem portas de estágio e nos ajudam a estar sempre atualizados quanto às demandas do mercado de trabalho para o analista internacional.

11. Pensando na Fernanda no início da carreira, ainda na faculdade… se pudesse dar um conselho, qual seria? 

Paciência, resiliência e persistência. Às vezes, parece que as coisas não vão dar certo, ou não acontecem no tempo em que esperamos. Mas com calma e assertividade podemos alcançar nossos objetivos. Eu sou uma pessoa muito ansiosa e tendo a me desanimar quando as coisas dão errado logo de cara, mas é preciso ter paciência, resiliência e ser persistente pois uma hora as coisas começam a encaixar. Tanto na condução de pesquisas, quanto na gestão de um curso, quanto na procura de um emprego.


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