O Mercado de Trabalho para os Analistas Interacionais no setor de P&G

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Caros Colegas Analistas,

 

Há algum tempo vários leitores têm me pedido para fazer um post sobre o mercado de Petróleo & Gás (P&G) para os analistas internacionais.

Não sei se tenho condições de falar sobre todas as possiblidades dentro desta área devido a sua complexidade e amplitude. Entretanto, trabalhando nela há quase três anos acredito que eu esteja apta a compartilhar com vocês como eu comecei meu trabalho em P&G e como ele tem sido desde então. Talvez possa trazer algumas ideias a vocês e esclarecer algumas dúvidas. Então vamos lá!

Eu me mudei para o Rio de Janeiro em 2012 em função de uma oportunidade profissional. Até aquele presente momento nunca tinha passado pela minha cabeça morar no Rio. Depois que saí de Brasília eu estava decidida a voltar para BH, minha cidade querida. Recebi várias propostas de trabalho, mas preciso ser franca: BH não paga bem. MG não paga muito bem. E para ser feliz, não basta apenas morar onde a gente gosta. É preciso conseguir pagar as contas. Pelo menos esta premissa faz parte do meu conceito de felicidade.

Então eu decidi me abrir a outras possibilidades e minha segunda opção passou a ser SP. Mas eis que mirando numa vaga eu acabei ficando com outra, e foi assim que vim para o Rio. A princípio o trabalho era para eu fazer mais do mesmo, já que estava indo para a matriz de uma filial em que eu já havia trabalhado antes. Mas havia todo aquele sentimento de conquista e novidade quando se muda para uma cidade nova.

Foi neste trabalho, inserida no contexto do mercado no Rio de Janeiro, que tive meus primeiros contatos com o setor de P&G. Foi o primeiro passo da minha caminhada. Participei de vários eventos e fui desenvolvendo meu networking na cidade, até em meados do mesmo ano surgiu a oportunidade de ir para a empresa em que estou até hoje. Então, eu passei a trabalhar exclusivamente com o setor de P&G.

Daí você se pega pensando: o que uma analista internacional poderia estar fazendo metida no meio de tantos engenheiros, ne?! E então eu conto para vocês: eu trabalho numa consultoria de projetos voltados para inteligência de mercado e desenvolvimento de (novos) negócios, e estou à frente da área internacional da empresa, o que se encaixa perfeitamente na minha formação’ graduação em R.I. + especialização em gestão de projetos’.

Aqui, vale um parêntese sobre a minha pós em gestão de projetos: além de como gerenciar projetos eu aprendi que, quase tudo na vida pode ser gerenciado como se fosse um projeto, com orçamento, escopo, cronograma, riscos e tudo mais. Então, além de usar no trabalho, esta pós também foi ótima para o lado pessoal, pois me ajudou de alguma forma a organizar e gerenciar a minha vida de forma mais objetiva. E profissionalmente pode ser aplicada em qualquer área. Então, fica a dica para quem se interessar.

Fechado o parêntese da pós, a minha formação em R.I. é a base do meu trabalho e foco do post de hoje. Na época, eu fui contratada para trabalhar com projetos de internacionalização de empresas, fosse para auxiliá-las a entrar no Brasil ou ir para o exterior, sempre no setor de P&G. Daí você achou que eu comecei de cara organizando missões empresariais para o exterior e viajando o mundo todo? Você não poderia estar mais enganado! O que poucos (aspirantes a) analistas internacionais compreendem sobre a profissão é que, antes de sair do país e se especializar lá fora, você precisa ter uma base sólida do mercado nacional. Então, no começo, eu fui fazer pesquisa de mercado no setor de P&G relacionada à inovação. Viajava para a Bahia duas vezes no mês e entrevistava engenheiros para a coleta dos dados para depois fazer as análises aqui no escritório do Rio.

Este período foi um desafio muito grande porque, enquanto analista internacional, eu tinha que entrevistar engenheiros e técnicos de uma operadora sobre questões de ordem tecnológica sobre gargalos que os impactavam na linha de produção de P&G. Tive que estudar muito para não chegar lá e ser pega em alguma questão. Até mesmo porque, quem me conhece pessoalmente, sabe que fisicamente eu estou mais para “Barbie Petróleo” do que para funcionário de campo exploratório, e sim, num meio predominantemente ocupado por homens existe certo preconceito velado que vez ou outra aparece em forma de perguntas do tipo: “Você não pode ser engenheira, ne?”. #oremos

Felizmente, essa realidade tem mudado de lá para cá, tendo em vista que muitas mulheres têm ocupado cadeiras nos cursos de engenharias como um todo e assumindo a frente de grandes negócios da área. Não quero desanimar as mulheres, mas vão existir alguns momentos trabalhando neste meio que vocês vão ter que trabalhar mais do que os homens para provarem que não estão lá de enfeite. E aí, vocês vão muitas vezes, ocupar o lugar que antes era sempre deles. É crucial transformar estes momentos críticos em desafios a serem vencidos. Essas vitórias terão um sabor especial, lhes garanto.

Vencida esta questão, muitas pessoas pensam que o ideal era que meu trabalho fosse feito por um(a) engenheiro(a). Mas a proposta do trabalho era exatamente a oposta: o projeto queria traduzir as necessidades tecnológicas para a linguagem de mercado e, eles entenderam que, possivelmente um engenheiro teria dificuldades de transformar um linguajar tão técnico e oportunidades mercadológicas. E foi aí que surgiu a minha oportunidade. (Vale colocar aqui que não estou fazendo nenhuma crítica aos engenheiros!)

Importante lembrar que, quando fui selecionada para trabalhar na minha empresa, não havia sequer menção ao curso de R.I. no edital da vaga. Ele mencionava economistas, administradores e engenheiros. Preciso dizer que isso deu um gostinho mais que especial à minha contratação. Mais importante que isso: a minha contratação fez com que as pessoas com quem eu trabalho conhecessem o meu curso e minha profissão e, desde então, quase todos os editais de vagas da minha empresa incluem ‘Relações Internacionais’ como requisito de graduação para as vagas. E eu tenho muito orgulho disso!

Este é outro ponto que eu acho ser quase uma obrigação dos Analistas Internacionais: todos nós devemos ser embaixadores da nossa própria profissão. Apresentá-la ao meio em que trabalhamos. Não se trata de preterir candidatos de outros cursos em detrimento dos nossos, mas permitir que eles tenham a chance de concorrer. E em pé de igualdade. E que passe o melhor. I think it is only fair.

E aí que passado o trabalho duro de inserção neste mercado, eu ganhei a confiança da minha empresa, e passei a ser a responsável pela área internacional dela. Com o meu trabalho, a empresa se tornou apta a desenvolver projetos com clientes de fora e, junto com ela eu tive/tenho a oportunidade de crescer profissionalmente e encarar os desafios internacionais.

Depois de falar da minha trajetória de inserção, acredito que vocês querem saber o que eu realmente faço por lá!

O meu foco está no desenvolvimento de (novos) negócios para empresas que querem entrar no mercado de P&G, bem como aquelas que já fazem parte deste mercado, mas buscam sua expansão. Para tanto, além de pesquisas de mercado – que envolvem desde apresentar o mercado às empresas, como onde elas se encaixam ou poderiam de encaixar nele – eu desenvolvo outras ações para apoiar estas empresas no incremento de seus negócios.

As missões internacionais, vistas por muitos com certa dose de glamour, são organizadas de diversas formas de acordo cm o objetivo do cliente, ou para um grupo deles. Podemos visitar feiras nacionais e internacionais do setor, visitar centros de pesquisa e desenvolvimento, visitar plantas fabris, nos reunirmos com potenciais clientes e/ou fornecedores.  Podemos ainda buscar conhecimento sobre determinado mercado ou prospectar novos produtos, serviços e tecnologias para serem trazidos para o Brasil.

Para quem pertence ao grupo que enxerga glamour nesta atividade, cabe um alerta: todo este trabalho demanda muita pesquisa, excelente habilidade comunicativa em diversos idiomas, muita organização, jogo de cintura, e acordar muito cedo – ou dormir muito tarde –  porque você precisa se comunicar com pessoas num fuso horário bem diferente do seu. Sim, as missões são muito legais, mas dão igualmente muito trabalho.

Aliado às missões, também desenvolvemos um trabalho chamado ‘Trilha de Negócios’. Realizamos o direcionamento e acompanhamento das empresas nas principais feiras de P&G do Brasil e também internacionais. Com nosso apoio, as empresas recebem um workshop preparatório com dicas para otimizarem suas visitas, bem como de etiqueta cultural, a fim de minimizarem os impactos culturais de uma negociação. Alem disso, nós acompanhamos as empresas e fazemos a interface das visitas, traduzindo e tomando nota de tudo, para apoiar o empresário na hora de realizar o follow up. Em suma, nós conectamos oferta e demanda e trabalhamos para que as oportunidades de negócio se concretizem.

Com o mesmo objetivo, realizamos Rodadas de Negócios em que compradores e vendedores se reúnem em encontros pontuais e breves, previamente agendados. Mas para que as agendas funcionem, existe todo um trabalho prévio de entender o perfil destas empresas e de suas expectativas, alem de um trabalho pesado na organização do próprio evento em que a Rodada é realizada. Às vezes chegamos a organizar centenas de reuniões numa única tarde.

 

Na minha percepção, o setor de P&G será sempre dominado por engenheiros e profissões afins, porque eles são os responsáveis por desenvolverem as tecnologias cada vez mais complexas para o setor. No entanto, para os Analistas Internacionais, eu vejo cada vez mais espaço no que tange o desenvolvimento de negócios e relacionamentos, afinal, um bom produto ou serviço precisa sair da prateleira e ir para o mercado, e acredito que nós somos bons em transformar inovação em geração de receita.

Mas não entenda esta transformação como uma forma simplista de uma relação comercial de compra e venda de um produto ou serviço. Acredito que temos espaço para participar do delineamento estratégico, planejamento e negociações em diversas áreas neste setor e cabe a cada analista mostrar a que veio e não só aproveitar as oportunidades que lhe aparecem, mas também criar as suas próprias e traçar seu próprio destino.

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Internacionalista, mineira, radicada no Rio de Janeiro desde 2012. Idealizadora/Fundadora do What's Rel? (2011). Business Development Latin America para uma empresa canadense de engenharia, sócia da PAR Consultoria, e grande entusiasta da carreira de R.I. :)

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