Entrevista com Denise Gregory

Graduada pela primeira turma do curso de Relações Internacionais RI, da UNB, e integrante da primeira turma da carreira de Analista de Comercio Exterior do MDIC, a internacionalista Denise Gregory, compartilhou conosco sua profunda experiência profissional, e dá dicas aos estudantes e internacionalistas que querem ingressar nas mais diversas áreas de atuação da carreira, seja na academia, no setor privado, ou no setor público.

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Graduada em 1978 pela primeira turma de RI da UNB e do Brasil, Denise Gregory contou ao What´s Rel sobre sua trajetória profissional desde a escolha de um curso que acabara de surgir e o privilégio das aulas que teve com diplomatas brasileiros, perpassando por suas especializações no exterior e experiências nos setores público, privado e acadêmico. Direcionou sua carreira para a área de Economia Internacional e hoje, aposentada pela carreira de Analista de Comércio Exterior do MDIC, Denise é professora no Instituto de Relações Internacionais – IRI da PUC Rio e atua como Senior Fellow do Núcleo América do Sul do CEBRI, Think Thank de relações internacionais.

Como você se decidiu pelo curso de Relações Internacionais, já que entrou logo nas primeiras turmas da UNB e como direcionou seus estudos para a área de economia internacional?

Eu só tinha 17 anos e tudo me chamava a atenção. Pensei em ser pediatra, por que eu amo criança; pensei em fazer comunicação, jornalismo por que gosto muito de me expressar; pensei em Letras, porque já lecionava inglês, e até em arquitetura. Fui apresentada ao curso por um namorado estudante de medicina na UnB, que achou que RI era a minha cara pois a profissão prometia viagens e demandava falar inglês e outros idiomas. E, realmente naquela época, sem internet, você não tinha acesso a informações facilmente. Na hora de fazer a inscrição, presencialmente, pedi mais detalhes sobre a grade do curso, multidisciplinar, uma mescla de temas da área de humanas, estruturado por especialistas, como Anna Maria Vilela, José Carlos Aleixo, e diplomatas, que se tornaram meus professores, como Carlos Henrique Cardim, Sérgio Bath, Samuel Pinheiro Guimarães, Celso Amorim, Luiz Augusto de Castro Neves… Gostei das matérias propostas e da opção de montar a grade com disciplinas optativas que mais me interessavam. Muito bom, pois construí meu curso quase todo voltado para área de economia internacional, faltando 10 matérias para me graduar em economia.

Logo após me formar eu consegui uma bolsa de estudo da Funcex para fazer um mestrado em RI, com especialização em Economia Internacional e América Latina, com duração de 2 anos, na Escola de Estudos Internacionais Avançados – SAIS/ The Johns Hopkins University, em Washington, DC, EUA. Professores de alto nível, uma das 5 melhores universidades do país e 40% dos estudantes estrangeiros, o que possibilitou a convivência com uma diversidade de regimes, culturas, em um excelente ambiente.

Posteriormente, consegui outra bolsa, desta vez da CAPES, para estudar fora, também nos EUA, no Union College, em Albany, capital do estado de NY. Este segundo curso, um MBA, foi muito importante pois me deu base e visão para ser gestora, função que ocupei em vários órgãos na minha carreira.

Conte-nos um pouco da sua experiência como internacionalista. Por quais setores e áreas você passou e quais as principais atividades exercidas?

Ao voltar do meu primeiro mestrado para Brasília, comecei a trabalhar para o governo brasileiro, na área internacional da SIDERBRÁS, empresa estatal/holding do setor siderúrgico, sendo chefiada por um diplomata, Aderbal Costa. Organizávamos informações para as empresas do grupo, exportadoras do aço brasileiro, que realizavam missões ao exterior. No Governo Collor, a estatal foi extinta e fui chamada para compor um grupo no Ministério de Minas e Energia que iria cuidar da privatização das siderúrgicas. Tinha por função o acompanhamento da CST (Siderúrgica de Tubarão) e de outras pautas como meio ambiente e acordos internacionais.

Já no Governo Itamar Franco, fui convidada a integrar a recriada Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), chefiada também pelos diplomatas Renato Marques e Maurício Cortes. Atuei como coordenadora-geral, e posteriormente Diretora do Departamento de Políticas de Comercio Exterior e como Chefe de Gabinete.  Acompanhei a estruturação da Secretaria, em especial dos Departamentos de Negociações Internacionais e de Defesa Comercial (dumping, subsídios). Foi um período muito rico de formação do Mercosul, negociação da ALCA, e de internalização dos Acordos da OMC.

Em 1996/97 foi estruturada a carreira de Analista de Comércio Exterior – ACE, fortemente apoiada pelos órgãos com atuação na área. Fiz o primeiro concurso e o curso de formação da carreira e passei em primeiro lugar. Fui convidada pelo embaixador José Botafogo, que foi meu Ministro no MDIC, a integrar a Secretaria Executiva da CAMEX, Câmara de Comercio Exterior, da Presidência da República, como assessora especial, responsável pelo acompanhamento dos processos de integração regional do MERCOSUL, deste com a União Europeia, e da ALCA. Participei da maioria das reuniões e acreditava muito nos ganhos reais desses Acordos para a maior inserção internacional do nosso país. A função do assessor é atuar para criar consenso no governo, em torno dos principais temas das negociações internacionais, apontando as divergências e convergências de posições de cada órgão que integra a CAMEX, para que as decisões possam ser tomadas.

Em 2001, Eleazar de Carvalho, com quem estudei no mestrado em Washington, foi nomeado Presidente do BNDES e me convidou para chefiar seu Gabinete. Vim para o Rio de Janeiro e aqui fiquei. Participei da intensa agenda de celebração dos 50 anos do Banco em 2002. Um privilégio!

Em 2003, tirei uma licença da minha carreira de ACE para integrar a Investe Brasil – uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse público). Fiquei 3 anos como Diretora de Relações Institucionais. Foi um trabalho muito rico pois mudou minha trajetória, que sempre foi de olhar para “fora”. Esse trabalho me possibilitou “olhar para o Brasil”, visitando quase todos Estados da federação, já que minha principal tarefa era criar redes de contatos e de pontos focais internamente, com foco na atração de investimentos externos.  Infelizmente, a Investe Brasil foi descontinuada no Governo Lula tendo suas funções levadas para a Apex-Brasil.

Fui mais uma vez convidada pelo Embaixador Botafogo, desta vez para dirigir o CEBRI – Centro Brasileiro de Relações Internacionais, onde trabalhei por 6 anos, atuando na captação de recursos e de parceiros nacionais e internacionais para a instituição, e na estruturação de seus projetos, voltados à promoção de debates, publicações e estudos. Passei a integrar seu Conselho Curador, e este ano assumi a posição de Senior Fellow do Núcleo da América do Sul, com a função de. coordenar projetos nas áreas de integração regional de bens e serviços, de convergência regulatória, de integração física, entre outros temas.

Em 2011, precisei retornar ao setor público para cumprir exigência de tempo na carreira de Analista de Comercio Exterior do MDIC. Ingressei no INPI – Instituto Nacional da Propriedade Industrial, uma autarquia do MDIC, como assessora, e logo me tornei Diretora de Cooperação para o Desenvolvimento, com a função de disseminar o uso estratégico da proteção do conhecimento (marcas e patentes) no país, representar o Brasil e negociar acordos de cooperação com Instituições congêneres em outros países. Trabalhei lá, até o ano passado (2017), quando me aposentei com ACE e passei a colaborar com o Instituto de Relações Internacionais da PUC Rio, estruturando e lecionando um curso de Comércio Exterior para a graduação em RI, em resposta à demanda dos alunos em ver os conhecimentos sendo aplicados na prática.

Sempre me interessei pela atividade acadêmica. Logo que voltei do primeiro mestrado fui, por duas vezes, professora colaboradora no Departamento de Relações Internacionais da UnB, concomitante com minhas funções na Siderbras. Mais tarde, já trabalhando na SECEX, lecionei no Mestrado em Comercio Exterior, Negociações e Câmbio da FGV em Brasília. Ainda ministrei algumas aulas em cursos de especialização na FEA/USP, UniCeub, e Fundação Dom Cabral.

Quais cursos e formações adicionais você acha que são fundamentais na carreira do internacionalista?

O idioma sempre será fundamental, independente da área que você trabalhe. O mínimo é ter o inglês, para leitura, para se comunicar, para negociar e realizar contratos… E se há uma vocação para estudar outros idiomas, melhor ainda. Estudar Mandarim é o máximo, a China apresenta “um mundo” de oportunidades.  Eu não tenho muita vocação para o idioma, mas estudei francês e espanhol, e no “Inglês” eu me sinto mais segura por ter morado nos EUA.  Se o internacionalista quer ser bem sucedido, tem que falar outros idiomas.

Além disso, se você é internacionalista, precisa ter a percepção do que está acontecendo no mundo inteiro, tem que estar antenado, e saber o que está acontecendo em seu país porque você vai representá-lo. Esta é realmente uma carreira dinâmica, nunca estaremos isolados em nosso “próprio mundo”.

Quais dicas você pode deixar para os estudantes e recém-graduados em relações internacionais?

É importante, mesmo que o curso não exija, procurar um estágio, para buscar entender como funciona a teoria na prática, e procurar desde cedo, fazer sua rede de contatos/ seu network. Se seu foco é realizar um concurso público, a preparação é outra. Eu por exemplo, fiz alguns cursos preparatórios para concursos porque as matérias/exigências são muito diferentes entre si. Para o concurso de assessor parlamentar da Câmara dos Deputados, fiz um curso específico sobre seu Regimento Interno, e um outro de redação legislativa, para aprender a escrever emendas, justificativas, linguagem específica que eu não tinha nenhuma vivência. Já para o concurso de ACE, fiz cursos de preparação em Direito Administrativo e Constitucional.

Se você já está formado, minha dica é procurar as oportunidades como trainee. Hoje quase todas as empresas privadas realizam contratações por esse processo. Também chamo a atenção para o potencial de oportunidades em organismos internacionais. Ainda, se seu interesse é a área acadêmica, você deve procurar cursos de formação em mestrado e doutorado para se posicionar melhor na busca de oportunidades.

Qual o diferencial do aluno de RI para as empresas?

O internacionalista cuida da representação institucional da empresa, aqui e lá fora. O diferencial é essa maleabilidade, essa visão de mundo que o internacionalista tem, multidisciplinar. Somos preparados para entender o mundo, os conflitos, os acordos, e, na área de Comercio exterior, conhecemos a importância da empresa se internacionalizar, os benefícios que traz esse processo para o aumento da sua competitividade,  o fortalecimento de sua marca… Exatamente porque vivemos um momento de crise, que se deve ter um plano B.

E acho que tem lugar para todo mundo: para quem só quer teoria, para quem quer prática, para quem quer trabalhar fora do país; é uma carreira bastante ampla! É o que traz uma grande satisfação. Vejam meu caso, que me especializei na área de comércio internacional, na trajetória da minha carreira, fui da academia, ao setor privado, público e terceiro setor.

Entrevista conduzida pela internacionalista Mariana Ghezzi, coordenadora voluntária do What’s Rel?.

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