Entrevista com Talita Zani Fechter

Conversamos com a Internacionalista Talita Zani Fechter, que atualmente exerce a função de Sourcing Manager na FMC Corporation. Formada em RI desde 2006, com uma vasta experiência e uma carreira brilhante, Talita nos contou um pouco da sua trajetória profissional e concedeu dicas valiosas aos futuros internacionalistas.

0
151

“(…) A graduação em RI contribuiu em algumas de minhas competências profissionais tais como: senso crítico; o interesse em compreender outras culturas antes do estabelecimento de relacionamento comercial; a importância em se analisar o todo; o contínuo questionamento dos porquês na tomada de decisão; e pensamento estratégico (…)”

Graduada em 2006 em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, pós-graduada em política internacional e certificada em compras estratégicas, Talita é especialista em negócios internacionais. Já foi professora de espanhol, atuou na área de compras de uma empresa de grande porte e atualmente, é Sourcing Manager da FMC Corporation. Com uma vasta experiência e uma carreira brilhante, Talita nos contou um pouco da sua trajetória profissional e concedeu dicas valiosas aos futuros internacionalistas.

Confira abaixo a entrevista completa.

1. O que a motivou a escolher o curso de Relações Internacionais?

Quando estava no último ano do ensino médio tinha diversas dúvidas sobre qual carreira
seguir. A única certeza é que seria em Humanas. Com o advento dos atentados de 11 de setembro de 2001 e minha fascinação por Geopolítica, pesquisei mais sobre Relações Internacionais – até então, curso disponível em poucas universidades – e decidi arriscar. À época tentei RI na Unesp Franca e Direito na USP-SP… ainda bem que fui aprovada em RI!

2. Seu primeiro trabalho foi como professora de espanhol. Como acha que essa
experiência profissional colaborou para seu crescimento pessoal e profissional?

Assim que terminei a graduação e não fui aprovada no Mestrado San Tiago Dantas, me
inscrevi em alguns programas de trainee, pois precisava trabalhar. O programa de trainee em que fui aprovada, área de RH da Ambev não me interessou e fiquei sabendo de um concurso na Prefeitura de Mococa para lecionar Espanhol. Considerando minha paixão por esse idioma e meu interesse pela área acadêmica decidi tentar. Sendo aprovada em primeiro lugar, assumi e devo admitir que o desafio foi grande, pois, embora tivesse experiência em monitoria e apresentações em Congressos Científicos, encarar alunos de 12 a 22 anos do Ensino Municipal era uma realidade nova. Dessa experiência retirei inúmeros ensinamentos, dentre eles a habilidade de falar em público, a capacidade de traduzir uma linguagem técnica para outra mais acessível, empatia e o interesse ainda maior por programas educacionais. Muitos desses aprendizados levei para o mundo corporativo e os utilizo rotineiramente.

3. Em 2007 – 2009, você atuou na área de compras da Tortuga Cia. – Zootécnica Agrária – empresa brasileira, pioneira em nutrição animal e uma das maiores do mundo no ramo. Nesse período, quais atividades desenvolveu que julga terem sido fundamentais para a sua trajetória profissional?

Recebi o convite de trabalhar na Tortuga através do Gerente de Compras que fazia MBA
com um colega meu. Ele foi um verdadeiro mentor pois ofereceu oportunidade a uma profissional recém-formada, sem experiência no mundo corporativo, sem conhecimento em Suprimentos e sem inglês fluente. Trabalhei de 2007 a 2012 nessa empresa e minha primeira atribuição foi prospecção de fornecedores, algo similar à pesquisa científica. Na sequência, recebi alguns treinamentos em Comex, sobretudo em processos de importação (legislação, desembaraço, certificação de origem, etc). Finalmente, assumi negociação de insumos nacionais e alguns importados. Após 12 meses, detinha conhecimento completo da cadeia de aquisição e fui promovida. A experiência na Tortuga foi, indubitavelmente, aquilo que me transformou na profissional que sou hoje.

4. Você desenvolveu uma trajetória profissional brilhante na empresa em que se encontra atualmente. São seis anos galgando novos cargos. Em que sua formação em Relações Internacionais contribuiu para esse crescimento profissional? Existem outros fatores que julga serem importantes nessa ascensão?

A graduação em RI contribuiu em algumas de minhas competências profissionais tais como: senso crítico; o interesse em compreender outras culturas antes do estabelecimento de relacionamento comercial; a importância em se analisar o todo; o contínuo questionamento dos porquês na tomada de decisão; e pensamento estratégico (oriundo principalmente das disciplinas de Segurança Internacional e Teoria de Guerra). O aprendizado que tive enquanto professora de Espanhol e na Tortuga contribuíram
sobremaneira para o desenvolvimento de uma visão holística de processos e para a capacidade de se relacionar. Isso atrelado a minha bagagem de Relações Internacionais são, creio eu, a chave de meu êxito profissional.

5. Hoje, você trabalha como Sourcing Manager. Poderia nos explicar sobre essa área de atuação para conhecermos melhor? Conte um pouco sobre sua rotina, responsabilidades profissionais e principais atividades desenvolvidas.

A área de Sourcing é relativamente nova no Brasil e, por ora, poucas empresas a possuem
na estrutura de Procurement. Trata-se de uma tendência no médio prazo, pois, cada vez mais, as corporações identificam que Procurement é muito mais do que emissão de ordens de compra. Na verdade, é um departamento estratégico que garante, muitas vezes, a vantagem competitiva da empresa no mercado de atuação. O Sourcing Manager é responsável basicamente pela gestão de relacionamento com fornecedores estratégicos; atua diretamente na identificação de fornecedores para novos projetos; administra e gerencia contratos regionais ou globais; identifica e apresenta projetos de
redução de custo, mitigação de risco de suprimentos e, inclusive, participa de fóruns internos de discussão sobre investimentos (aumento de capacidade produtiva por exemplo); trabalha com cost breakdown (isto é, composição de custo dos insumos atuando tal como uma área de inteligência de mercado, prevendo aumentos ou quedas de preços, o que auxilia na negociação e execução de aquisições estratégicas). Atualmente, sou responsável pela aquisição de químicos (matérias-primas) para Américas
(América do Norte e toda América Latina). Além do continente em questão, trabalho muito com a Ásia, sobretudo Índia e China, o que determina uso intensivo dos idiomas Inglês e Espanhol, além do respeito às diferentes culturas. Em algumas semanas, minha jornada de trabalho se inicia na madrugada do Brasil, devido ao fuso horário. Inclusive, meu gestor é dinamarquês e fica lá. Outro ponto importante é que cerca de 40% de meu tempo envolve viagens internacionais.

6. Você é especialista em negócios internacionais, pós-graduada em política internacional e certificada em compras estratégicas. Como e por que escolheu essas especializações? Qual a importância para o trabalho que desenvolve atualmente? Na sua opinião, qual a relevância de uma pós – graduação?

A minha primeira especialização, Negócios Internacionais, foi essencial para que adquirisse
o conhecimento técnico daquilo que exercia na prática enquanto trabalhei na Tortuga. Tudo que aprendi nessa época utilizo até hoje. Decidi cursar Política Internacional, pois tenho fascínio pela área de RI e a grade curricular continha disciplinas atrelados a economia, algo essencial para meu trabalho atual. Por fim, decidi estudar Compras Estratégicas devido à minha promoção a Sourcing Manager. Nas aulas, aprendi algumas ferramentas que podem auxiliar a execução das tarefas diárias, além do network. Acredito que uma pós-graduação é fundamental para um profissional. Os cursos de graduação, principalmente o de RI, oferecem uma visão generalista e, na pós-graduação, os alunos têm a possibilidade de afunilar os campos de interesse. Uma especialização serve, na verdade, como um direcional.

7. Como Analista Internacional, quais foram as suas maiores dificuldades com relação ao mercado de trabalho? Como fez para superá-las?

Graduei-me em 2006 e naquela época as empresas desconheciam quase que completamente o que um profissional de RI estava apto a fazer. Estudei na Unesp e o foco do curso foi extremamente teórico, logo algo não “aceito” pelo mercado de trabalho, local onde a tomada de decisão precisa ser rápida. Diante disso, minhas principais dificuldades foram: encontrar uma empresa que aceitasse minha formação e que estivesse disposta a desenvolver minhas capacidades. Acredito que o primeiro passo para superar essas dificuldades foi minha transparência ao informar aquilo que sabia e tudo aquilo que precisaria aprender. Além disso, sempre tive disposição para buscar o conhecimento que me faltava, seja estudando por conta, seja buscando especializações.

8. Você possui fluência em quatro idiomas: Português, Inglês, Espanhol e Francês. Em sua vida profissional, quais desses idiomas possui maior relevância?

Por ordem de importância: Português (meu idioma nativo), Inglês (minha empresa é
norte-americana e meu gestor dinamarquês) e Espanhol (por minha atuação na América Latina). Não sou fluente em Francês e decidi estudar por hobby.

9. Além disso, você possui certificado de Proficiência na Língua Espanhola. A busca desta certificação foi devido a alguma exigência do mercado de trabalho ou devido os cargos que já ocupou? Em que período da sua jornada profissional adquiriu essa certificação?

Sempre gostei de Espanhol e estudei esse idioma durante minha graduação em RI. Quando
terminei o curso regular, o proprietário da Escola de Idioma sugeriu que fizesse o exame de
proficiência, pois isso abriria portas em meu futuro, fosse num mestrado ou mesmo para a
obtenção de um emprego. Segui o conselho dele e, graças ao Certificado DELE, pude me inscrever no concurso para Lecionar essa Língua na rede Municipal de Ensino de Mococa.

10. Para terminar, se pudesse dar alguma dica aos futuros analistas internacionais que desejam seguir a sua carreira, qual seria?

Acredito que o ponto mais importante é mostrar disposição para atuar em um segmento
que não está diretamente atrelado a RI. Além disso, a humildade para admitir ignorância em alguns assuntos é essencial. O estudo de idiomas estrangeiros também é ponto chave.
A graduação em RI transforma o nosso mindset e é muito útil na construção de
relacionamentos no mundo corporativo, pois ao mesmo tempo em que temos um aspecto
questionador, respeitamos opiniões divergentes da nossa dado aos estudos de antropologia e sociologia. Os desafios do mercado de trabalho são grandes, porém com dedicação e disposição podemos ter uma trajetória exitosa.

Essa entrevista foi produzida com a ajuda da estudante de Relações Internacionais da UFRJ e Colaboradora Voluntária Giovanna Soares.

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here