Entrevista com Thalyta Ferraz – Gestão de Projetos do BRICS Policy Center.

Conversamos com a internacionalista Thalyta Ferraz que atualmente atua na área de Gestão de Projetos do BRICS Policy Center.

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“(…)  minha formação foi o que fez o diferencial para que eu pudesse desempenhar essas funções em um think tank com foco em política internacional, pois havia uma demanda de elaboração de conteúdo, lidar com um público internacional e os esforços de internacionalização do Centro em si.”

Thalyta é Bacharel em Relações Internacionais pela PUC-Minas e Mestre em Relações Internacionais, Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, Políticas Culturais e Identidades Nacionais pela PUC-RJ. Trabalhou na implementação do projeto BRICS Policy Center (BPC) como secretária de Comunicação entre 2011 e 2013 e como Assistente de Pesquisa e Editoração entre 2013 e 2015. Thalyta ocupa a área de Gestão de Projetos desde 2017 no BPC. Possui experiência em gestão de mídias sociais e produção de conteúdo digital para instituições governamentais.

Confira abaixo a entrevista completa:

  1. O que a motivou e levou a optar pelo curso de Relações Internacionais?

Em termos práticos, a escolha se pautou na minhas matérias preferidas na escola: História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Em termos mais subjetivos, sempre fui curiosa quanto ao porquê do mundo ser como é, por que as pessoas são elas são, como chegamos a esse ponto de as coisas funcionarem da maneira que funcionam.

Ao terminar o segundo grau no interior, em Montes Claros, não tínhamos uma orientação vocacional muito consistente. Lembro de pesquisar a grade das disciplinas ofertadas no curso de RI da PUC Minas e decidir por ele por querer todo aquele conhecimento, mesmo sem entender muito como eu exerceria essa profissão/formação.

  1. O seu trabalho de mestrado foi voltado para a área de Cooperação Sul-Sul. Essa escolha foi reflexo da sua trajetória acadêmica? Como foi essa escolha?

Durante a graduação, me interessei muito pelos estudos de identidade nacional, cultura e pensamento social brasileiro e foram os temas abordados no meu trabalho de conclusão. Para a dissertação de mestrado, procurei conciliar minhas preferências com a agenda de pesquisa do departamento e do BRICS Policy Center, onde já trabalhava. No caso, a identidade nacional brasileira era objeto da política da Cooperação Sul-Sul em implementação pelo governo brasileiro da época (2014) através do IPHAN. Então, foi interessante investigar quais eram funções desse tema ali nas estratégias brasileiras para si e para o mundo.

  1. Desde 2011 você tem papel fundamental no BRICS Policy Center. Quais atividades que você desenvolveu na sua trajetória que julga terem sido fundamentais para trabalhar em um think tank?

Minha função inicial no BRICS Policy Center (BPC) foi na área de comunicação e eventos. Meus estágios, sobretudo na Secretaria de Intercâmbio da PUC Minas e na Câmara de Comércio Francesa, foram fundamentais para desenvolver noções gerenciais e executivas de comunicação e gerais. No entanto, minha formação foi o que fez o diferencial para que eu pudesse desempenhar essas funções em um think tank com foco em política internacional, pois havia uma demanda de elaboração de conteúdo, lidar com um público internacional e os esforços de internacionalização do Centro em si.

  1. Em seu perfil no Linkedin há um destaque para os idiomas que você tem desenvoltura, como o inglês, o espanhol e o francês. Qual tem sido a importância do idioma na sua atuação no BRICS Policy Center? Quais outros idiomas você recomenda que nossos leitores deem atenção para trabalhar em um think tank?

Fluência em inglês ainda é sem dúvida o mais relevante no currículo de um internacionalista. No meu caso, foi essencial para a transição para o cargo que ocupo atualmente, de gestora de projetos internacionais. A função exige habilidades gerenciais que outras formações podem oferecer, mas a desenvoltura para negociar as burocracias com os diversos parceiros internacionais e para comunicar as pesquisas desses projetos dependem da proficiência na língua estrangeira. Ao longo da minha trajetória, outras experiências profissionais também só foram possíveis apenas por eu falar francês. Além do inglês e espanhol, atualmente, eu diria que falar Chinês abriria um universo de oportunidades, visto o papel crescente desse país na América Latina e no mundo.

  1. Muitos dos nossos leitores demonstram interesse em cursar Mestrado assim como você cursou. Como essa sua escolha contribuiu para o seu desempenho profissional?

O mestrado, além de ser requisito em algumas profissões e cargos, para a carreira acadêmica, o conhecimento, as exigências e todos os desafios moldaram minha capacidade analítica, de elaboração de solução de problemas no trabalho que exerço hoje e me credenciam para desempenhar atividades paralelas e mais autônomas, como prestar consultoria e escrever textos. Foi importante para construir minha rede profissional e para meu amadurecimento também.

  1. Enquanto Analista Internacional, qual foi a maior dificuldade enfrentada no BRICS Policy Center?

O BPC foi fundado em 2010 e foi o primeiro centro de pesquisas em política internacional financiado com recursos públicos no Brasil. Eu tinha acabado de me formar e me mudei para o Rio para ser parte da equipe administrativa. Nesse espectro burocrático e de novidade para quase todos os envolvidos, o maior desafio foi aprender enquanto se fazia o trabalho e se instituía o próprio Centro. Como responsável pela comunicação, mais especificamente, a maior dificuldade foi estabelecer um cronograma de publicação do conteúdo geral para um site bilingue, à medida que, simultaneamente, havia que sistematizar as publicações, suas entregas, traduções e formatação.

  1. No site do BRICS Policy Center descobrimos que você possui experiência em gestão de mídias sociais e produção de conteúdo digital. Quais conselhos você daria para futuros internacionalistas que gostariam de seguir a carreira na área de mídia e comunicação?

Para um trabalho gerencial, embora muito se sabe e se aprende a partir do uso das nossas próprias mídias pessoais, eu diria que cursos específicos, como de SEO e de gestão de mídias sociais, muitos deles disponíveis online, podem oferecer métodos para que se possa interpretar impacto e elaborar estratégias de comunicação a partir dos relatórios de acesso, além de uma melhor compreensão das ferramentas que podem potencializar a disseminação de qualquer conteúdo na internet.

Outro ponto que acho particularmente interessante, é o tema ser também objeto de estudos, de elaboração de normas e de regimes internacionais, visto as implicações que o uso da internet e das mídias sociais tem na política, como no caso das interferências em campanhas eleitorais, na segurança de dados dos usuários, para o combate ao terrorismo, etc.. Já existem comissões específicas sobre o tema na União Europeia e na ONU, cargos governamentais que demandam essa especialidade.

  1. O dia-a-dia em um think tank tem características específicas. Como é a sua rotina de trabalho no BRICS Policy Center?

O BPC tem como missão se estabelecer como um espaço público e aberto para sociedade civil, governos, academia, setor privado, para debates e elaboração de uma agenda progressista de direitos. Nesse sentido, as atividades envolvem reunir um grupo diverso para tratar os temas. Isto significa uma agenda de muitos seminários, reuniões, workshops que acontecem na própria casa, muitas vezes abertos ao público geral, onde ocorrem também aulas do MAPI e circulam pesquisadores e alunos de RI da PUC-Rio. A rotina de escritório é então mesclada com essa agenda de temas e eventos da casa, o que deixa o trabalho intelectualmente mais rico, às vezes mais agitado e com mais distrações (rs).

  1. A cada ano novos cursos de RI surgem no país. Além de novos cursos, você acredita que existe espaço para novos think tanks?

Um think tank tem em sua definição ser capaz de produzir conteúdo relevante sobre assuntos e problemas correntes. Essa capacidade deve definir também a importância de sua existência. Esses “centros de pensamentos” obviamente dependem de recursos para se manter. Além das universidades, acredito que o campo da filantropia tem potencial para apoiar tais centros que são sim muito importantes para o desenvolvimento de conhecimento científico, não enviesado e crítico para a sociedade em geral. Acredito que são espaços importantes para formação complementar de alunos e pesquisadores também.

  1. Thalyta, você foi gerente de comunicação no BRICS Policy Center. Quais são os maiores desafios de comunicação em um think tank? Quais conselhos você daria a quem gostaria de seguir esse caminho?

Um dos maiores desafios do BPC, enquanto um think tank vinculado a uma instituição acadêmica, é a comunicação: potencializar a disseminação do conteúdo que se elabora de maneira que seja interessante e palatável para os diversos setores da sociedade (civil, privado, governos), em um formato relevante para quem os elabora, no caso, pesquisadores, o corpo docente e discente da universidade. Nesse caso, habilidades em edição de conteúdo (texto e audio visual) e de elaboração de estratégias de comunicação são fundamentais.

  1. Você acredita que sua formação em Relações Internacionais colabora para sua atuação profissional? Quais os atributos são necessários para um analista internacional atuar com gestão de comunicação na área internacional?

Sim. De maneira mais ampla, a formação é interdisciplinar e me proporcionou uma capacidade analítica e de elaboração muito particular e que, assim como para muito colegas, possibilita trabalhar em funções e instituições diversas. Para trabalhar com gestão do setor de comunicação, além da importância de dominar as ferramentas e ter uma compreensão mínima de jornalismo, toda bagagem curricular contribui para minha função de editora de conteúdo, avaliar a conveniência e relevância das informações e dados a serem transmitidos, entender o público alvo daquele conteúdo.

  1. Você foi pioneira ao implementar o setor de comunicação no BRICS Policy Center. Quais lições você pode nos relatar sobre a implementação deste setor em uma think tank?

 A demanda desse trabalho no BPC sempre foi de sistematizar os periódicos (artigos, relatórios, bancos de dados) e credenciá-los com registros internacionais de publicação e, por fim, estabelecer um método de disseminação dessas publicações nas plataformas, site e mídias sociais. Esse trabalho exige uma organização de funções, estabelecer cronogramas, e o salto se dá quando se combina esse conteúdo com os temas em circulação para que as publicações sejam de fato utilizadas pela mídia em geral e, mais recentemente, sejam acessadas, compartilhadas.  

  1. Quais ferramentas ou aprendizados extracurriculares durante a sua graduação em Relações Internacionais tem sido fundamentais para trabalhar na área de gestão de projetos desde 2017? Você pode compartilhar conosco uma situação do seu trabalho em que utilizou tais ferramentas?

Os estágios contribuíram bastante para desenvolver habilidades administrativas, organização e execução de tarefas, gestão de tempo. No BPC, são cerca de cinco pesquisas em desenvolvimento simultaneamente, então ferramentas como o Trello podem ajudar bastante para cumprir prazos. Um ponto interessante é o fato de ter trabalhado com eventos ajudar bastante na elaboração de orçamentos hoje, já que muitos projetos envolvem organização logística de workshops internacionais. Além disso, o trabalho demanda também análises e revisão de quadros lógicos e teorias de mudanças muito exploradas nos cursos de RI. No caso, é importante igualmente avaliar os riscos de execução do projeto desde sua elaboração e na sua complexidade, as possibilidades de interferências contextuais que podem alterar o conteúdo em si ou o andamento do projeto como um todo. Recentemente, assumimos o atraso na conclusão de um projeto devido a epidemia causada pelo coronavírus, pois impediu a vinda de um fellow chinês que contribuiria para o levantamento de dados. Não é algo que se possa prever, mas deve-se considerar e apresentar alternativas para solucionar, por exemplo.

Esse post foi produzido com a ajuda da estudante de Relações Internacionais da UFF e Colaboradora Voluntária Francyne Motta.

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