Como Funcionam Os Processos Seletivos Nas Embaixadas e Organismos Internacionais no Brasil?

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Durante um ano e meio morei em Brasília e tive a oportunidade de trabalhar em duas Embaixadas e ainda participar de diversos processos seletivos. No começo foi tudo bastante desanimador até que fui descobrindo o caminho das pedras e as coisas foram se tornando mais simples. Por isso decidi compartilhar tudo que aprendi neste período com vocês. Acho que se eu tivesse estas informações quando comecei eu teria pulado etapas desgastantes na busca por um emprego em Embaixada que apresenta algumas particularidades.Para começar eu sou mineira e toda minha formação acadêmica e experiência profissional aconteceram em Minas, de forma que eu não tinha uma rede de contatos estabelecida em Brasília. Isso com certeza já foi um entrave porque muitas vezes é través de uma indicação de um amigo ou um contato profissional que as portas se abrem. Networking é muito importante neste cenário, não somente em Brasília.

O primeiro passo foi mapear todas as Embaixadas existentes no Brasil. Neste link, http://www.itamaraty.gov.br/cerimonial/corpo-diplomatico/ no site do Itamaraty existe uma lista com todas as representações diplomáticas existente nos Brasil. Atualmente o Brasil acolhe aproximadamente 124 missões diplomáticas. Digo aproximadamente porque devido à política externa de aproximação com os países africanos e caribenhos, especialmente, iniciada no governo Lula, muitos países estão abrindo representações diplomáticas no Brasil, de maneira que fica difícil precisar um número exato.

Identificados o número de Embaixadas e quais países elas representam, selecionei aqueles que eu tinha interesse profissional e pessoal em trabalhar. Seja por já ter morado na Noruega, ou por ter trabalhado com chineses e indianos, ou ter interesse no mundo árabe ou no Reino Unido, fiz uma lista e comecei a pesquisar na internet. Algumas Embaixadas mantêm sites muito bem estruturados e postam lá todas as vagas de trabalho disponíveis, como por exemplo, as Embaixadas do Reino Unido(http://ukinbrazil.fco.gov.uk/pt/about-us/our-embassy/working-for-us/current-vacancies), do Canadá (http://www.canadainternational.gc.ca/brazil-bresil/offices-bureaux/job_opportunities-offres_demploi.aspx?lang=por&view=d), dos EUA (http://portuguese.brazil.usembassy.gov/pt/job-opportunities.html), da Austrália (http://www.brazil.embassy.gov.au/bras/home.htmlda Dinamarca (http://www.ambbrasilia.um.dk/br), da Noruega (http://www.noruega.org.br/). Algumas possuem áreas nos sites especificamente para ofertas de emprego e outras postam a vaga em sua página inicial. O importante é monitorar sempre estes sites e ficar de olho.

Staff da Embaixada do Egito – 2011
Festa em Comemoração à  Data Nacional do Egito

Algumas Embaixadas não possuem site e por isso acabam divulgando suas vagas através do jornal Correio Braziliense, nas edições de domingo e quinta-feira, o que complica um pouco, pois só quem mora em Brasília acaba tendo acesso. Além das Embaixadas é possível encontrar vagas de emprego em organismos internacionais como o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – http://www.pnud.org.br/recrutamento/index.php), a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/vacancies/) a UNICEF(Fundo das Nações Unidas para a Infânciahttp://www.unicef.org/brazil/pt/overview_9402.htm) entre outras instituições. Além das vagas, os jornais e a internet por vezes trazem notícias sobre novas missões que estão sendo abertas no país, e novas missões sempre demandam novos funcionários.Outras Embaixadas não divulgam suas vagas e por isso vale à pena levar seu currículo para ser entregue em mãos ou enviar pelos correios. Antes de enviar, certifique-se de que a Embaixada está disposta a receber seu currículo entrando em contato com ela. Na época, lembro-me de não ter podido entregar o meu na Embaixada da China, que só trabalha por meio de indicação, nem na Embaixada da Espanha que só trabalha com contratação por edital.

Outra dica muito importante para quem tem interesse em trabalhar em Embaixadas: muitas delas só contratam pessoas que falam também o idioma do país que representam. A Embaixada da Alemanha só trabalha com quem fala alemão, a da Itália com quem fala italiano e assim sucessivamente. Algumas, como as árabes, por exemplo, acabam aceitando funcionários que falam inglês fluente e não o árabe, pela dificuldade de encontrar pessoas que falem o idioma. Mas não se iludam, eles sempre irão preferir o funcionário que fala a língua de origem do país, logo, se não for requisito eliminatório ele será no mínimo de caráter preferencial.

Tradução do discurso do Embaixador do Egito, Dr. Ahmed H. I. Darwish,
para português

Na minha experiência profissional em Embaixadas posso dizer que os processos seletivos não variam muito: sempre há uma prova de idiomas por escrito para avaliar seus conhecimentos relacionados a ele. Na maioria dos casos uma tradução a ser feita de inglês para português e de português para inglês, num curto espaço de tempo. Dependendo da Embaixada seu espanhol ou outro idioma poderá ser testado. Se selecionado, o candidato será entrevistado em inglês, por pelo menos três pessoas. As maiores Embaixadas possuem departamentos de recursos humanos muito bem estruturados, nas menores as entrevistas serão feitas pelos próprios diplomatas. O estilo de entrevista é um pouco diferente do setor privado. Além de eles lerem todo seu currículo e carta de apresentação (geralmente solicitada nos editais) de maneira minuciosa, a maior parte das perguntas terá um caráter situacional, o que significa que eles irão te apresentar uma situação característica daquela vaga e perguntar se você já passou por aquilo, qual foi sua atitude diante dela, e se não passou o que teria feito neste caso. Sempre relacionando sua resposta com as informações apresentadas no seu currículo. Por isso, ao ler o edital, certifique-se que conhece bem as atividades descritas e, mesmo que não tenha experiência com elas procure se informar sobre as características atribuídas às atividades a fim de evitar saias justas.Dentro do cenário saias justas, esteja ciente que a maior parte das Embaixadas não emenda feriados. Isso é cultura brasileira. Em nenhum outro lugar existe tal situação. Horários têm que ser respeitados e a maior parte das embaixadas trabalha 35 horas por semana, o que não dá espaço para sair mais cedo ou chegar mais tarde já que a carga horária já é reduzida. Outras Embaixadas trabalham com flexibilidade de horário desde que as metas e tarefas sejam executadas dentro do prazo. Um ponto interessante é que todos os feriados nacionais são comemorados: os nacionais do Brasil e do outro país. Nos feriados do outro país isso não necessariamente significa folga sempre. Às vezes são feitos eventos, como por exemplo, as festas de Data Nacional, que envolvem toda a Embaixada e dão muito trabalho.

Com relação às leis trabalhistas, as embaixadas estão subordinas à legislação trabalhista brasileira. Elas somente não podem reter na fonte o valor do imposto de renda que deve ser pago pelo próprio funcionário através do carnê leão. Mas fique atento porque algumas já foram levadas à justiça por não pagar tudo em dia. Uma boa maneira de evitar este tipo de situação é consultando o SINDNAÇÔES (http://sindnacoes.org.br/) que poderá te fornecer informações valiosas quanto à conduta das Embaixadas com relação aos seus funcionários.

Assim como em toda instituição, em qualquer área, existirão os bons e os maus funcionários. Como a maioria não pode ser mandada embora, assim como no funcionalismo público brasileiro, existe uma tendência para que os brasileiros contratados acabem trabalhando mais que os estrangeiros. Vejam bem, isto não é regra geral e não estou diferenciando aqui as nacionalidades como sendo melhores ou piores. Estou apenas lembrando que isso existe em qualquer país, inclusive senão, sobretudo, no nosso.

Sobre os salários posso afirmar que as Embaixadas que representam países ricos obviamente terão os melhores salários: norte da Europa, Oceania, Estados Unidos e Canadá. Além disso, são também as Embaixadas que apresentam vagas mais interessantes profissionalmente em termos de atividades, com cargos de chefia inclusive. As demais embaixadas terão oportunidades para cargos como motorista, copeiro, jardineiro, secretário(a), assessor(a). Muito embora também, as vagas de secretário e assessor sejam muito boas especialmente como porta de entrada na embaixada para quem tem menos experiência. É importante ressaltar que tudo pode começar também por meio de um estágio, que segue as mesmas diretrizes das vagas de emprego mencionadas neste post.

Estar bem informado é fundamental na hora de conseguir uma vaga em Embaixada. Não somente sobre o outro país, mas também sobre o Brasil. Tenha em mente que eles já sabem tudo sobre o país deles e que você estará lá para auxiliá-los a conhecer melhor o Brasil. Não adianta morrer de estudar sobre a economia do Reino Unido para disputar uma vaga no departamento econômico da Embaixada britânica, por exemplo, se você nada souber sobre o cenário econômico brasileiro. Mantenha-se atualizado buscando notícias nos jornais para estar bem preparado.

Por fim algumas dicas que acredito serem válidas em qualquer processo seletivo:

– Se vista de maneira formal e tenha uma postura séria;- Não se atrase nunca. Melhor chegar mais cedo do que atrasado;

– Se não souber realizar determinada tarefa, mostre sempre que está disposto a aprender;

– Não pare de estudar nunca;

– Busque o maior número de informações sobre a instituição em que deseja trabalhar;

– Estude sobre a cultura daquele país para não se surpreender com hábitos culturais peculiares;

– Não interrompa jamais seu avaliador; espere a sua vez de expor seus pensamentos;

– Elabore frases objetivas com começo, meio e fim, e certifique-se que foi capaz de responder à pergunta solicitada;

– Leia sempre e seja capaz de mencionar um livro pertinente à vaga que almeja quando perguntado;

– Não minta para o avaliador nem para você mesmo: às vezes podemos ser surpreendidos durante a entrevista e percebermos que aquela vaga não era exatamente o que queríamos. Melhor não aceitar o cargo se não é do seu real interesse. Deixe as portas abertas para outra oportunidade.

– Difícil mesmo é conseguir sua primeira oportunidade de trabalho dentro de uma Embaixada. Umas vez lá dentro e com experiência na área será muito mais fácil conseguir um up grade na sua carreira.

Ainda tem alguma dúvida? 
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Internacionalista, mineira, radicada no Rio de Janeiro desde 2012. Idealizadora/Fundadora do What's Rel? (2011). Business Development Latin America para uma empresa canadense de engenharia, sócia da PAR Consultoria, e grande entusiasta da carreira de R.I. :)

2 COMENTÁRIOS

    • Ola, Luiza,
      Agradecemos pela visita em nosso site e pelo interesse.
      Nós não temos conhecimento sobre vagas voltadas para ‘jovem aprendiz’ em embaixadas/consulados.
      Em principio elas não existem, mas esse cenário segue de acordo com a decisão das instituições.
      Abraços
      Equipe WR?

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